Psicoterapeuta atende casais binacionais

Janine Radice von Wogau 

Especializada no atendimento a casais binacionais, a psicoterapeuta ítalo-americana Janine Radice von Wogau contou ao CIGA-Informando um pouco sobre seu trabalho. Janine fala também espanhol, português e alemão e está à disposição em seu consultório em Freiburg, na Alemanha, ou para realizar palestras e workshops sobre esse tema.

1. Que tipo de trabalho você realiza?

Eu faço psicoterapia e aconselhamento para indivíduos, casais e famílias. Meus clientes são principalmente imigrantes vindos de uma grande variedade de países e que moram na região de Freiburg (Alemanha) e Basel. A maioria dos meus clientes imigrou em função de seu trabalho ou são casados com cidadãos alemães ou suíços e vivem, portanto, em um relacionamento intercultural. Eles geralmente estão passando por fases naturais de transição cultural ou por situações de estresse intenso, acentuado por perdas e dificuldades associadas à adaptação e integração numa nova cultura. No meu trabalho de terapia e acompanhamento nós analisamos juntos o que está acontecendo e nos focalizamos no uso dos recursos disponíveis para resolver os problemas. Eu utilizo um método de aproximação sistêmica do problema, isto é, eu vejo os problemas como parte de um contexto amplo, não apenas como conflitos internos individuais, mas conectados ao seu contexto familiar e social.

Nos últimos dez anos tenho trabalhado cerca de 50% com casais, utilizando um método específico para terapia de casais chamado EFT (Emotionally Focused Therapy – Terapia de Foco Emocional – www.eft.ca

). Este método se provou muito eficiente para o trabalho com casais, especialmente aqueles que querem realmente permanecer juntos. Às vezes eu me pergunto porque as pessoas não procuram logo uma terapia de casal. É um investimento pequeno para um relacionamento de longo prazo, especialmente quando você pensa nos custos emocionais

e financeiros implicados num divórcio e nos efeitos de longo prazo sobre as crianças. No fim das contas, uma terapia de média duração acaba custando o mesmo que uma semana de férias. Quando eu observo alguns dos meus clientes eu muitas vezes penso que é pena eles terem esperado tanto. Quanto mais os casais esperam e quanto maior a angústia que os aflige, tanto mais difícil é o trabalho. Nos Estados Unidos a terapia de casais está se tornando uma prática cada vez mais comum. Com uma taxa de divórcio por volta dos 50% tanto para os primeiros como para os segundos casamentos, observa-se que nos últimos dez anos as pessoas mais e mais estão percebendo as vantagens de buscar ajuda profissional para melhorar a qualidade e a flexibilidade de seus relacionamentos de longo prazo

2. Onde você trabalha e em que línguas você atende?

Eu estou trabalhando em Freiburg, Alemanha. Eu trabalho no „Psycologische Beratungstelle für Ehe-Familie-und Lebensfragen“ (Centro de Aconselhamento Psicológico para Casais, Famílias e Perguntas do Cotidiano”) e tenho também um consultório privado. Freiburg fica a mais ou menos 40 minutos de Basel. Eu faço terapia em inglês, português, espanhol e alemão. Inglês é minha língua materna e eu falo bem português porque morei 14 anos no Brasil e tenho uma filha brasileira. Eu também morei e trabalhei no Equador e no Chile e agora estou morando na Alemanha há 14 anos. Eu vivo num casamento bi-cultural e tenho uma filha que é tri-cultural.

3. Como você começou a trabalhar em português?

Eu nasci e fui criada em Chicago, filha de uma família de imigrantes italianos nos Estados Unidos. Eu sou ítalo-americana. Depois de terminar meus estudos, fui viajar na América do Sul. Conheci meu marido alemão no Chile e nos mudamos juntos para o Brasil. Nós moramos e eu trabalhei como professora primeiro na Universidade em Fortaleza e depois em Salvador, Bahia. Vivíamos basicamente “em português”, tanto por causa de nossa filha, como nos relacionamentos no trabalho e com amigos.

4. Por que você decidiu se especializar no trabalho com casais binacionais?

Logo que eu cheguei em Freiburg, convidaram-me para participar de uma mesa redonda sobre casamentos com migrantes. Naquela época eu não sabia o que isso significava. Lá eu descobri que existia uma coisa chamada “noiva de catálogo”, isto é, alguém que quer se casar e mudar-se para a Europa. Essas mulheres normalmente eram estereotipadas e discriminadas na Alemanha e na Suíça.

Quando cheguei na Alemanha, eu pensei que nunca iria conseguir alcançar meus objetivos porque ensinar e fazer terapia em alemão me parecia impossível. Aquela fase inicial foi muito, muito difícil para mim, meu marido e minha filha. Independente disso, eu queria apenas continuar o trabalho que havia iniciado no Brasil, onde já tinha começado a me interessar pela questão familiar e a terapia familiar sistêmica.

Dois anos depois da minha chegada e da batalha com a língua alemã, consegui um emprego no „Psycologische Beratungstelle für Ehe-Familie-und Lebensfragen“, um local reconhecido em Freiburg como especializado no aconselhamento e terapia de casais. Comecei a oferecer terapia em outras línguas e descobri uma demanda por terapia em inglês, português e espanhol. Descobri também que existe um percentual grande de casais binacionais na região: 28% dos casamentos civis somente em Freiburg.

Vejo também que esse fenômeno está se tornando cada vez mais normal e muitos casais estão se encontrando pela internet. A União Européia e a globalização têm também um impacto sobre a natureza e as tendências da imigração. Em 1992, comecei a observar isso enquanto aconselhava casais e fiquei interessada em ler mais sobre imigração e os estresses inerentes a ela. Esse tema acabou se tornando uma área de especialidade para mim. Decidi então publicar um livro sobre o assunto, em conjunto com dois outros profissionais da área. Em 2004, a Beltz Verlag (www.beltz.de

) publicou o livro ”Therapie und Beratung von Migranten. Systemische-interkulturell denken und handeln”. A revista online Systemagazin (www.systemagazin.de

) publicou até um artigo sobre o livro.

5. O que os casais binacionais têm em comum? Qual é a diferença entre esses casais e os que vêm de uma mesma cultura?

Casais binacionais têm muitos dos mesmos problemas que os casais que vêm de uma mesma cultura. Mas eles têm mais desafios, há mais diferenças para enfrentar. Quando alguém se casa, não está casando apenas com um indivíduo, mas também com sua família e sua bagagem cultural. A fascinação pelo diferente exerce um papel na escolha matrimonial. Por isso mesmo, as diferenças e os acordos são ainda mais centrais nos casamentos entre pessoas de duas culturas. O parceiro ou parceira que imigra está vivendo sob uma rede de apoio inferior ao seu normal, é confrontado com uma nova cultura e uma nova língua e com a perda da independência e de seu próprio rendimento. Isso cria um desequilíbrio de poder.

Assim, além das diferenças de gênero e às vezes também de classe ou religião, existem outros múltiplos fatores de estresse. Alguns deles são muito simples como: a que horas e o que a pessoa costuma comer, como se deve receber os convidados, onde passar as férias e a que horas as crianças devem ir dormir. O respeito pela cultura do outro e o apoio e aceitação das famílias de ambos os lados é muito importante. A apreciação e o respeito pela cultura do parceiro são também importantes recursos para um casal binacional.

As similaridades entre os casais binacionais e os casais provenientes de uma mesma cultura se encontram no fato de que os seres humanos em geral estão pouco preparados para o casamento. As pessoas têm pouca capacidade para a comunicação e a resolução de conflitos, o que é necessário para manter um relacionamento de longo prazo. Isso pode ser aprendido. Naturalmente todas as pessoas têm elementos que elas trazem de suas

famílias de origem para o casamento e isso desempenha um papel na escolha dos parceiros. Uma terapeuta muito experiente disse que manter uma parceria de longo prazo é um dos principais desafios que contribuem para o nosso desenvolvimento pessoal. Como Margaret Mead afirmou: “Se você não casar com o rapaz da porta ao lado, então você pode ter certeza de que não vai morrer de tédio, mas você tem que planejar trabalhar mais pesado”.

O outro lado dessa moeda é a dinâmica e a falta de tédio inerente à vida num relacionamento binacional. E a criatividade implícita numa família multicultural tem alargado horizontes e feito a vida mais colorida.

(Irene Zwestsch) – CIGA – Informancao 44,

Janeiro, 2007

Freiburg, Alemanha.

 

 

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